Os olhos de Steve Jobs
Todo mundo assistiu Kill Bill, de Tarantino. Se você não está bem lembrado, dê uma olhadinha na cena acima.
O filme conta a história da vingança de Beatrix Kiddo, personagem de Uma Thurman, que anseia por liquidar uma a uma as pessoas que tentaram lhe matar no dia do seu casamento.
Antes de começar a caçar seus inimigos, ela atravessa o mundo até a ilha de Okinawa, no Japão, à procura de Hattori Hanzo, um lendário fabricante de espadas samurai. As espadas de Hanzo são tão perfeitas, tão afiadas, equilibradas e infalíveis, que Beatrix não pode pensar em outra arma para utilizar em seu plano.
Tá, mas e quando o Steve Jobs entra nessa história?
Não entra, é claro. Mas não posso pensar numa metáfora melhor para explicar o que, no meu ponto de vista, é a razão da sua grandeza.
Eu, que nunca decapitei ninguém com uma Hattori Hanzo, posso chamar de maluco quem cruza o mundo por ela. Alguém que nunca usou um dos produtos de Steve Jobs pode chamar de fanboy, macfag ou applemaníaco quem os adora.
Sim, Jobs foi o CEO do século. Sim, ele foi um visionário. Sim, foi um gênio do marketing e da oratória. Mas, se fosse “só” isso, a comoção causada pela sua morte estaria, realmente, exagerada. É a excelência que ele sempre, incansavelmente, buscou (e quase sempre atingiu) que a justifica.
Excelência encanta, inspira. E os produtos da Apple são, sim, por maiores que sejam as dúvidas de quem nunca os utilizou, excelentes, no mais amplo significado do termo.
Manusear uma ferramenta excelente dá a sensação de que não há obstáculos entre nossas ideias e sua concretização. A ferramenta perfeita nos impulsiona a buscarmos, nós mesmos, a excelência e a perfeição. Uma ferramenta excelente nos expande, nos estende, nos engrandece.
E isso é elevado à enésima potência quando as ferramentas em questão são as mais importantes do nosso tempo. Não estamos falando aqui de furadeiras, canetas ou bicicletas perfeitas, mas de computadores, a ferramenta que estamos usando para mudar nossa forma de existir. Por isso, softwares, computadores e dispositivos móveis excelentes são uma das maiores contribuições que alguém poderia dar ao mundo de hoje.
É evidente que isso não deve nos tornar cegos aos erros e defeitos de Jobs. É claro que não podemos esquecer das péssimas condições de trabalho nas fábricas da Apple na China, do descaso com o lixo eletrônico, da falta de compromisso com os países mais pobres, a arrogância com os empregados, etc, etc.
Mas, como uma amiga postou no Facebook hoje: “Tem gente que olha os olhos, outros a remela.”
É uma pena que os olhos de Steve Jobs tenham se fechado tão cedo.