09 out 2011

Os olhos de Steve Jobs

Por Renato Carvalho

Todo mundo assistiu Kill Bill, de Tarantino. Se você não está bem lembrado, dê uma olhadinha na cena acima.

O filme conta a história da vingança de Beatrix Kiddo, personagem de Uma Thurman, que anseia por liquidar uma a uma as pessoas que tentaram lhe matar no dia do seu casamento.

Antes de começar a caçar seus inimigos, ela atravessa o mundo até a ilha de Okinawa, no Japão, à procura de Hattori Hanzo, um lendário fabricante de espadas samurai. As espadas de Hanzo são tão perfeitas, tão afiadas, equilibradas e infalíveis, que Beatrix não pode pensar em outra arma para utilizar em seu plano.

Tá, mas e quando o Steve Jobs entra nessa história?

Não entra, é claro. Mas não posso pensar numa metáfora melhor para explicar o que, no meu ponto de vista, é a razão da sua grandeza.

Eu, que nunca decapitei ninguém com uma Hattori Hanzo, posso chamar de maluco quem cruza o mundo por ela. Alguém que nunca usou um dos produtos de Steve Jobs pode chamar de fanboy, macfag ou applemaníaco quem os adora.

Sim, Jobs foi o CEO do século. Sim, ele foi um visionário. Sim, foi um gênio do marketing e da oratória. Mas, se fosse “só” isso, a comoção causada pela sua morte estaria, realmente, exagerada. É a excelência que ele sempre, incansavelmente, buscou (e quase sempre atingiu) que a justifica.

Excelência encanta, inspira. E os produtos da Apple são, sim, por maiores que sejam as dúvidas de quem nunca os utilizou, excelentes, no mais amplo significado do termo.

Manusear uma ferramenta excelente dá a sensação de que não há obstáculos entre nossas ideias e sua concretização. A ferramenta perfeita nos impulsiona a buscarmos, nós mesmos, a excelência e a perfeição. Uma ferramenta excelente nos expande, nos estende, nos engrandece.

E isso é elevado à enésima potência quando as ferramentas em questão são as mais importantes do nosso tempo. Não estamos falando aqui de furadeiras, canetas ou bicicletas perfeitas, mas de computadores, a ferramenta que estamos usando para mudar nossa forma de existir. Por isso, softwares, computadores e dispositivos móveis excelentes são uma das maiores contribuições que alguém poderia dar ao mundo de hoje.

É evidente que isso não deve nos tornar cegos aos erros e defeitos de Jobs. É claro que não podemos esquecer das péssimas condições de trabalho nas fábricas da Apple na China, do descaso com o lixo eletrônico, da falta de compromisso com os países mais pobres, a arrogância com os empregados, etc, etc.

Mas, como uma amiga postou no Facebook hoje: “Tem gente que olha os olhos, outros a remela.”

É uma pena que os olhos de Steve Jobs tenham se fechado tão cedo.

0 Comentários sobre o post "Os olhos de Steve Jobs".

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong> <pre lang="" line="" escaped="">